segunda-feira, 2 de junho de 2014

Auto reparo, ilusão de imunidade e a letargia do sapo[1]


Antonio Donato Nobre


A nova ciência do sistema terrestre vem revelando e demonstrando que os sistemas vivos de regulação climática tem enorme capacidade de responder e compensar por abusos e perturbações, semelhante ao resiliente pneumático cuja borracha flexível absorve os impactos dos buracos na estrada. À mente reducionista e pragmática, incapaz de considerar além do bem-estar imediato para formar julgamento, essa resiliência natural é usual e ignorantemente tomada por “imunidade” a abusos.  Apesar desta capacidade de absorver abusos, o sistema natural não é imune; como na metáfora do pneumático o desgaste e a fadiga cumulativa dos materiais decorrente do mau uso, comprometem sua capacidade e longevidade, ou um impacto poderoso simplesmente o estoura.

Um paralelo ilustrativo para compreender a relação irresponsável da humanidade atual com a complexa nave Terra é a relação do alcoólatra com seu corpo. Os episódios de bebedeira seguem mais ou menos a mesma rotina de dependência: desejo irrefreado de prazer leva a ingestão de substancia tóxica; a substancia atua no corpo e produz uma avalanche de sensações – suprindo o circuito de recompensa no cérebro do viciado - e também promove uma serie de danos; alguns dos danos são perceptíveis no dia seguinte, quando o prazer e o torpor já evaporaram e a ressaca indica estragos no sistema; os órgãos trabalham freneticamente para processar/expulsar o tóxico até que o sistema volte ao normal. Porém, cada episodio de intoxicação deixa atrás de si uma esteira de milhões de células mortas e defeitos bioquímicos cumulativos. Mas o sistema de “conforto” orgânico é tão eficiente que o alcoólatra, passada a ressaca, tem a viva ilusão de que não foi nada, que afinal buscar o prazer ao ingerir o tóxico não é tão mal assim, já que o sistema sempre se recupera e fica bom de novo. Até um dia no qual os invisíveis defeitos e danos cumulativos superam a capacidade de auto-reparo do organismo e este entra em colapso súbito (por cirrose hepática). 

A humanidade quer seguir seu curso gerando, ingerindo e expelindo para o meio todo tipo de tóxicos. O organismo terrestre (biosfera) processa o abuso em seus órgãos (ecossistemas), atenuando ou anulando as perturbações. Mas a ignorante humanidade, não contente de contaminar e intoxicar, dedica-se também a devastar os próprios órgãos (ecossistemas), que em condições normais fariam em maior ou menor tempo a faxina e os reparos dos abusos. Neste sentido a relação da humanidade com a grande nave planetária é ainda pior do que a do alcoólatra com seu sofrido corpo; apesar de intoxicar-se repetidamente, não ocorreria ao alcoólatra sair “desmatando” seu fígado. É neste exemplo que se pode também compreender porque o entendimento de quem estuda o clima academicamente é tão diverso daquele que o vivencia, sem compreende-lo. O médico do alcoólatra, por teoria ou mesmo por analise dos exames, não se engana sobre a ilusão de bem estar recorrente, ele sabe dos danos do vício ao corpo, e alerta ao viciado dos riscos cumulativos e da necessidade imperiosa de parar com os abusos. Como o indolente sapo na panela da fábula,  o alcoólatra -analfabeto em medicina-, desconsidera os alertas de seu médico e segue no vício, iludido pela desconectada e fatal micrológica do bem estar resiliente. Mas a metáfora não termina aí.


[1] Conhecida anedota sobre a reação de um sapo em uma panela com água, à velocidade com que se aquece. Um aquecimento rápido o fará saltar, mas um aquecimento bem lento e gradual terá o animal completamente imóvel, até morrer na fervura sem reação. Uma revisita ao experimento porém, publicado na revista Nature no século 19, -e outros experimentos modernos- mostra que o único sapo que não salta no experimento de aquecimento lento é aquele de quem fora removido o cérebro.  Sapos normais saltam em qualquer velocidade de aquecimento.